Vitória de Pirro
Na região da Apúlia (Itália), berço do maravilhoso vinho “primitivo di manduria”, no longínquo ano de 279 a.C., travou-se a famigerada batalha que leva o seu nome, Batalha da Apúlia. Foi lá que o general Pirro, rei do Épiro e da Macedonia, entrou para a história como o comandante que venceu batalhas à custa de irreparáveis baixas no próprio exército. Nessa campanha da Apúlia, após a carnificina que aniquilou uma enorme quantidade de soldados, Pirro teria dito: “Uma outra vitória dessa, e estaremos arruinados”.
Analisando o iminente desfecho da copa do mundo no Brasil, ocorreu-me de imediato a alusão da conquista pírrica para nominar a possível vitória da seleção brasileira em campo e a derrota do povo brasileiro fora dele.
A copa do mundo no Brasil poderia ficar marcada pelos custos exorbitantes na construção de arenas faraônicas -- e acredita-se que muitas ficarão inviáveis, a exemplo do que ocorreu na Africa do Sul --, atraso na entrega das obras de mobilidade, e subordinação das autoridades nacionais aos interesses da FIFA, entre outras mazelas diretamente ligadas ao mundial. No campo sócio-econômico, o futebol que sempre foi arma de manipulação de massa, e tornou-se a principal ferramenta para o governo petista encobrir os nossos problemas, que proliferam em todas as áreas. O governo faz a sua propaganda, travestindo-se de verde e amarelo, resgatando o patriotismo de chuteiras e repetindo exatamente a estratégia do governo militar que tanto abomina.
Desde que se iniciou o mundial no Brasil, o comércio estagnou. As decisões de investimento nas empresas estão paralisadas, São Paulo registrou uma baixa de produção industrial recorde, e tudo indica que os sucessivos reajustes do cálculo do PIB culminarão num crescimento irrisório da nossa economia.
Nos gramados, a seleção brasileira segue acumulando vitórias nas suas batalhas. O Brasileiro, embriagado de cerveja e de futebol, não quer pensar em discutir política e economia. A triste realidade da falência política e econômica do Brasil teria que estar em pauta, por estarmos a apenas três meses da eleição. Não vai dar tempo, seguimos ganhando nos gramados. Nosso exército auriverde segue aniquilando os inimigos, mas, ao mesmo tempo, nossa nação segue definhando. Quanto mais jogos tivermos pela frente, menos tempo teremos para discutir os nossos assuntos sérios.
Tudo indica que venceremos uma batalha de Pirro. O Brasil será hexacampeão nos gramados e o PT poderá tornar-se tetravencedor nas urnas. Como disse Pirro: “uma outra vitória dessa, e estaremos arruinados”.
A história se repete.
Batista Pedregulho
Contra-Almirante aposentado
*Batista Pedregulho é um heterônimo de Gustavo Rocha para escrever sobre política na ótica de um homem autoritário, idoso, neurótico e aposentado.
